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Parceiro de Neymar na base do Santos treina na praia à procura de clube

Santos

 

“As pessoas me perguntam o que aconteceu. Eu digo: vocês têm tempo para me ouvir?” A frase dita pelo meia-atacante Geovane Batista Lobo, 25, é a prévia de uma história comum para jovens talentos do futebol brasileiro.

Apontado como jogador com “potencial para melhor do mundo”, palavras que guardou do encontro com o técnico francês do Arsenal (ING), Arsène Wenger, Geovane, pelo menos por enquanto, ficou pelo caminho.
“Tudo passou muito rápido. Bate uma saudade ao ver que todos estão bem”, afirma o jogador, que foi o principal parceiro de Neymar nas categorias de base do Santos.

“Fico muito feliz, principalmente pelo Neymar e o Coutinho, com quem tinha uma proximidade maior.”

Geovane pertence a uma geração promissora e esteve ao lado dos titulares da seleção de Tite em convocações para as seleções de base, entre 2007 e 2009.

Com Neymar, a parceria ia além. Eles cresceram sob olhares atentos na Vila Belmiro. Vistos como principais talentos de sua geração, eram comparados a Diego e Robinho, crias do clube que venceram o Brasileiro de 2002.

“Éramos companheiros de quarto na seleção e no Santos. Nos entendíamos dentro e fora de campo. Construímos uma amizade nesse período. Éramos felizes por jogar futebol, nem tínhamos a noção dessa comparação”, afirma.

Agora há um abismo os separando. Enquanto o atacante do Barcelona (ESP) é um dos principais jogadores do mundo, Geovane busca um recomeço na carreira.

Sem clube e sem empresário, ele treina diariamente na praia, por conta própria. Ao seu lado, apenas um preparador físico, que ele próprio contratou. Só não aceita o rótulo de “ex-jogador”.

“Não deixo ninguém falar isso. O primeiro a acreditar tem que ser você mesmo. Isso já aconteceu com outros. Não desisti, não pendurei as chuteiras”, afirma o jogador.

 

AVENTURA EUROPEIA

A vida do menino que foi preparado para ser o novo camisa 10 do Santos mudou com apenas um “sim”.

Logo que chegou ao clube, com 14 anos, passou a ser chamado para a seleção brasileira e observado pelo responsável do Arsenal em mapear talentos no país, o brasileiro Sandro Orlandelli.

Convidado para conhecer o clube e a Inglaterra, ele viajou acompanhado do pai e do seu empresário à época, escondido do Santos. A saudade, porém, o fez voltar.

“Não estava feliz. Meu procurador falou que poderia mudar a minha vida, mas bati o pé e recusei”, diz.

Dois anos depois, já com 17 e o primeiro contrato profissional assinado com o clube da Vila Belmiro, o Arsenal fez uma nova investida. Dessa vez, decidiu aceitar.

Geovane diz que sofreu represálias no Santos por não querer assinar um novo contrato. Acabou fora da Copa São Paulo e não foi liberado para a disputa do Sul-Americano sub-17 com a seleção.

Foi para Londres e procurou a Justiça para se desvincular. Era só o início de uma briga que parecia não ter fim.

Os ingleses alegavam irregularidades no contrato, enquanto o Santos recorria à Fifa. Com medo de uma punição da entidade, o Arsenal desistiu de contratá-lo após o jovem ter ficado meses apenas treinando no clube.
De volta ao Brasil, recebeu proposta que parecia perfeita. Por intermédio da DIS, braço esportivo do Grupo Sonda, retornaria à antiga casa com salário de cerca de R$ 40 mil, mais bonificação pela assinatura de um contrato de cinco anos. Aceitou, porém nada foi como antes.

DESFECHO RUIM

No Santos, ele nunca jogou entre os profissionais. Acabou só assistindo à geração comandada por Neymar ganhar títulos e viu o antigo parceiro “trocá-lo” em campo por Paulo Henrique Ganso.

“O mistério da minha história é que até hoje não tenho uma explicação do clube para entender por que não joguei. Nunca me chamaram para conversar e dizer que não seria aproveitado, que deveria ser emprestado”, diz.

Foram cinco anos treinando nas categorias de base ou, após estourar a idade limite, em horários alternativos, afastado dos demais atletas.

Uma briga política –por ter sido uma aposta do ex-presidente Marcelo Teixeira– e seu alto salário são as hipóteses aventadas por ele para não ter sido aproveitado.

“Acredito que a política, de certa forma, pode ter influenciado. O que chegou até mim era que o clube alegava que eu ganhava muito. Eles contestavam os valores que recebia, mas não foi 100% isso.”

Chegou a jogar uma Copinha pelo Santos e participar de torneios com equipe sub-23 ou jogadores não aproveitados. No último ano de contrato, em 2014, foi chamado para o time principal pelo técnico Oswaldo de Oliveira. A chance de entrar em campo, no entanto, nunca chegou.

Depois de sair do Santos, passou por Foz do Iguaçu, Mogi Mirim e América de Teófilo Otoni, sua cidade natal.

As palavras daquele que quase foi o seu treinador o fazem seguir adiante. Ele ainda quer provar que tem o talento que não desabrochou.

OUTRO LADO

Antigos dirigentes e ex-técnicos do jogador no Santos não veem seu insucesso como fruto de uma perseguição do clube.

“Não recebi nenhuma instrução para não utilizá-lo. Fui buscar jogadores na base, inclusive, mas não vimos uma evolução para colocá-lo na frente de nomes de uma geração que estava num melhor momento”, afirma Claudinei Oliveira, atual treinador do Avaí, que conheceu Geovane na base santista.

“Eu o conheço desde que estava na [categoria] sub-15, com o Lima [ex-jogador e técnico]. Tem uma boa técnica, é um menino tranquilo, mas chegava ao profissional e voltava”, completa Claudinei.

Já para Adilson Durante Filho, diretor da base santista entre 2002 e 2008 e do profissional entre 2008 e 2009, a ida para a Inglaterra atrapalhou Geovane por um motivo diferente do dito pelo atleta.

“Eles [jogador e família] foram iludidos, até pela simplicidade que tinham. A opção dele o fez perder a condição de subir com a sua geração ao lado de Neymar, Alan Patrick, André e outros. Esses e muitos outros subiram comigo Ele perdeu o tempo certo de formação”, diz.

Outro fator levantado é uma possível desmotivação. Enquanto via os companheiros com quem atuou ganharem chances no profissional, Geovane teve de recomeçar praticamente do zero nas categorias de base do Santos.

“É um jogador moderno, mas conversávamos muito com ele sobre o foco. Ele perdeu isso em alguns momentos”, relata Narciso, técnico santista na base entre 2008 e 2011.

Lesões em momentos cruciais da carreira também atrapalharam. No último ano no Santos, já entre os profissionais, ficou afastado por longo período se recuperando de uma lesão no ombro.

RAIO-X

NOME
Geovane Batista Lobo

Nascimento
9.jan.1992 (25 anos), em Teófilo Otoni-MG

Clubes (profissional)
Santos (2009-2014), América de Teófilo Otoni-MG (2012/2016), Foz do Iguaçu (2015) e Mogi Mirim (2015)

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